quinta-feira, 16 de julho de 2015

ERA PORTUGUÊS


PAI DO HIPNOTISMO CIENTÍFICO


Estátua do Abade Faria, Pangim, capital de Goa









José Custódio de Faria (1756 - 1819)


Português, nascido em Goa, mais conhecido sob o nome de Abade Faria, foi o fundador da ciência de hipnotismo, o primeiro a proclamar a doutrina e o método do hipnotismo pela sugestão. Como cientista demonstrou o carácter puramente natural da hipnose, desmistificou os fenómenos hipnóticos, que na altura eram considerados sobrenaturais, tendo sido ele o primeiro a descrever com precisão os métodos e efeitos da hipnose. Soube antever as possibilidades da sugestão hipnótica no tratamento das doenças nervosas.



Abade Faria



Reconhecimento, Homenagens no século 20 e 21


Em Marselha dedica-se ao hipnotismo e escreve a sua obra "De la cause du sommeil lucide", publicada em Paris em 1819, que o neurologista Egas Moniz, prémio Nobel de Medicina, classificou como "a verdadeira doutrina dos fenómenos de hipnotismo", no seu estudo “O Padre Faria na História do Hipnotismo” de 1925.


Em 1959, o Hospital Psiquiátrico no Altinho (Pangim, capital de Goa) passou a designar-se Hospital Abade Faria.
 

Existem inúmeras ruas em Portugal e espalhadas pelo mundo, que recordam este homem invulgar, como a Rue Abbe Faria no centro histórico de Marselha.


2006, Portugal homenageia Abade Faria  


Selo comemorativo dos 250 anos do nascimento (31.05.1756) 
 de Abade Faria, CTT - Correios de Portugal,  
colocado em circulação no dia 31 de maio de 2006.










Factos da vida do Abade Faria

 
Doutorado em filosofia e teologia (Roma 1780), conquista grande fama como pregador e é convidado por Pio VI a realizar um sermão na Capela Sistina (Sermão papal de Faria - inglês) , assistida pelo próprio papa.



Em 1788 emigra para Paris. Defensor da revolução francesa (1789), lidera em 1795 um batalhão revolucionário, o “10eme Vendémiaire”, que contribuiu para a queda da Convenção Nacional.


Em 1797 é preso em Marselha por razões desconhecidas e encarcerado numa solitária do temido presídio Chateau d’If. Durante esse isolamento instrui-se incessantemente nas técnicas da autossugestão.


Após uma longa permanência na prisão do castelo é libertado e regressa a Paris, onde conhece Alexandre Dumas. O escritor fica de tal forma impressionado com o abade, que o utiliza como personagem na sua obra, “O Conde de Monte Cristo”.


Foi professor de Filosofia na Universidade de Marselha e em 1812 é eleito membro da Societé de Médicine de Marselha, sem ser médico.










Abade Faria imortalizado por Alexandre Dumas


Dumas, que também escreveu o romance histórico "Os Três Mosqueteiros" fez dele um personagem angular do seu célebre romance O Conde de Monte Cristo" (1844), descrevendo-o como um homem de grande erudição.

Faria é o catalisador da metamorfose do humilde Edmond Dantès
no sumptuoso Conde de Monte Cristo.




O legendário ator irlandês, Richard Harris,
interpreta o sábio Abade Faria,
o companheiro de prisão e mentor de Edmond Dantès.

 

34:10 O desespero de Edmond na prisão. 37:12 O Abade Faria apresenta-se.

40:49 O Abade dá-se a conhecer. 43:29 Faria revela a existência do tesouro.

45:40 Faria mentor de esgrima, economia, física, ciências políticas, línguas, etc.

48:21 Faria induz Edmond a desvendar a verdadeira razão da sua prisão.

52:53 Faria entrega o mapa do tesouro a Edmond. O Abade morre.



"Em troca de sua ajuda, eu lhe ofereço algo de valor inestimável." (Abade Faria)
"Minha liberdade?" (Edmond)
"Não, a liberdade pode ser tirada, como bem sabe. Eu ofereço-lhe o meu conhecimento." 41:12



"O mais forte espadachim não necessariamente é o que vence. É a velocidade! Velocidade da mão, a velocidade da mente." 55:59





Castelo de If
Prisão do personagem e do real Abade Faria.
A ilha de If fica a 20 minutos de barco do porto de Marselha.










A Hipnose segundo o Abade Faria


Usou a hipnose para produzir sugestões hipnóticas (anestesias, paralisias, alucinações, cura de sintomas psicossomáticos) e sugestões pós-hipnóticas (ordens que o sujeito cumprirá ao acordar, decorrido o tempo fixado pelo hipnotizador).

O Abade Faria foi o primeiro a reconhecer o lado subjetivo do fenómeno em toda a sua extensão, a propagar que a hipnose se produzia e se explicava em função do paciente. O transe estava no próprio paciente e, não era devido a nenhuma influência magnética ou poderes especiais do hipnotizador, mas, simplesmente, à suscetibilidade dos indivíduos sobre os quais intervém. Neste tipo de fenómenos tudo dependia de causas naturais, sem intervenção de quaisquer forças misteriosas ou realidades metapsíquicas.

Faria escreve: “ Não posso conceber como a espécie humana foi buscar a causa deste fenómeno a uma celha ou panela (baquet), a uma vontade externa, a um fluído magnético, a um calor humano, a mil outras extravagâncias deste género, quando esta espécie de sono é comum à natureza humana, através dos sonhos, e a todos os indivíduos que se levantam, andam ou falam durante o sono”.

Faria designou a hipnose por sonho lúcido. Faria designava o hipnotizador por "concentrador" e o hipnotizado por "concentrado", atribuindo à concentração um papel predominante.

Recomendava o relaxamento muscular ao paciente, fitava-lhe firmemente os olhos e em seguida ordenava em voz alta: “Durma”! A ordem era várias vezes repetida. E os elementos mais suscetíveis entravam imediatamente em transe hipnótico. Este método é mais uma fascinação, isto é, um meio brusco de choque repentino de causar hipnose por uma sugestão violenta, aplicável em indivíduos muito sensíveis à sugestão hipnótica. O Abade Faria era famoso como fascinador, mas quem ele ia hipnotizar, já estava na pré-disposição, ou já estava sob uma influência que facilmente permitia hipnotizar-se.









Testemunho Contemporâneo


O general francês Noget escreveu em 1815 a respeito do Abade Faria:

“Encontrava-se em Paris um homem que fazia publicamente a experiência de sonambulismo. Em cada dia (isto em 1815) reunia em sua casa umas 60 pessoas e era raro que entre estas, não se encontrassem cinco ou seis suscetíveis de entrar em sonambulismo. Não se esquecia de declarar abertamente que não possuía nenhum segredo, nenhum poder extraordinário, tudo o que obtinha dependia da vontade das pessoas sobre as quais atuava.”







A impacto do Abade Faria na Psicoterapia


Os fenómenos hipnóticos despertaram a descoberta do inconsciente

Por outro lado mostraram a existência da censura, na medida em que o hipnotizado se mostra incapaz de cumprir sugestões contrárias à sua ética pessoal.

Constituindo, pois, a hipnose uma variação do estado de vigília, um estado de atenção concentrada. Para que ocorra o estado hipnótico é necessária a vontade de colaboração do paciente e, além disso, nada pode ser feito contra os princípios e moral do paciente.

As descobertas de Faria viriam a ter um papel fundamental no desenvolvimento das psicoterapias e da teoria da catarse.






Bibliografia 



EGAS MONIZ.   
O Abade Faria na história do hipnotismo
Editorial Vega
Lisboa, 1977












 DALGADO, D.  
Memoire sur la vie de l'Abbé Faria  
Henri Jouve Éditeur
Paris, 1906


Extratos do livro: