sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

TODO ELENCO DE ATORES HIPNOTIZADOS





Coração de Vidro - Herz aus Glas (Alemanha, 1976), Werner Herzog (considerado por François Truffaut como "o mais importante cineasta vivo")


A trama central mostra a desagregação de uma aldeia de artesãos na Baviera, no século XVIII, a partir da morte de um mestre vidraceiro que leva consigo o segredo da fórmula de fabricação do "vidro-rubi". 

Nas suas obras Herzog vai para além da história para expressar a sua visão sobre a humanidade, a vida e o mundo. Esta longa-metragem nasceu do fascínio do cineasta pelo hipnotismo. 

Em "Coração de Vidro", ele leva o experimentalismo a um novo patamar ao trabalhar com um corpo de atores sob efeito de hipnose durante toda a filmagem. As únicas personagens não hipnotizadas são os vidreiros nas cenas em que trabalham na fornalha, provavelmente por questões de segurança, e Hias (diminutivo de Matthias), um médium e sábio, que vive na floresta e prevê o destino de todos. A diferença é notória na fluidez dos movimentos e da fala de Hias, pedra angular do filme. A sua lucidez separa-o das pessoas comuns, que vivem sem a menor consciência das suas ações ou do seu destino.
 


Herzog on Herzog, Paul Cronin, editora: Faber and Faber Ltd., 2002

Perguntado por Paul Cronin, em seu livro "Herzog sobre Herzog", se todo o ângulo de hipnose do filme era um truque, Herzog respondeu: 
"Todos, menos a personagem principal - o único vidente entre eles - eram hipnotizados antes de fazerem as suas cenas. Insisto que a hipnose foi por razões de estilização e não de manipulação. Eu certamente que não queria um monte de fantoches-atores para o filme. Durante anos, as pessoas têm-me acusado de querer ter maior controlo sobre os atores nos meus filmes. No contexto daquilo que estávamos a fazer em "Coração de Vidro", eu asseguro-lhe que, como diretor, teria sido muito melhor para mim ter atores que não estivessem em transe."





Every Night the Trees Disappear

Werner Herzog and the Making of Heart of Glass
De Alan Greenberg, Prefácio de Werner Herzog
Em 2012, decorridos 36 anos, foi editado pelo Chicago Review Press o livro do making of de “Coração de Vidro”.  


No vídeo que segue Werner Herzog e Alan Greenberg falam sobre o recurso à Hipnose no filme "Coração de Vidro"




No seu livro, Greenberg partilha as suas observações sobre a forma como este visionário cineasta dirigiu uma obra-prima. Ao hipnotizar os seus atores antes de filmar cada cena, Herzog liderou o seu elenco para um verdadeiro submundo cinematográfico, que conduziu a um dos filmes mais inesquecíveis de todos os tempos.

O procedimento de casting de Herzog consistia principalmente na colocação de anúncios em jornais alemães, na seleção dos entrevistados em função da sua sugestionabilidade e estabilidade, para em seguida, através do poder da sugestão, esculpir representações de civis acabados de nascer do transe.

Inicialmente, Herzog trabalhou com um hipnotizador profissional, mas em breve, o próprio Herzog assumiu o papel de hipnotizador e afirma ter alcançado uma tal mestria que no final da produção era capaz de induzir a transição dos seus atores, de um estado para o outro, em 15 segundos, e viu-se forçado a adotar uma voz artificial quando dava instruções à equipa, para evitar que todo o elenco tentasse segui-las automaticamente.

Os atores hipnotizados, muitos deles não eram atores, pareciam artificiais e sonâmbulos. Moviam-se como se carregassem um peso enorme e caminhassem debaixo de água. Quando os atores interagem os seus olhos vidrados estavam focados em pontos de uma distância inacessível. O tempo de todos, no discurso e na ação, era desfasado, todos encontravam-se desconectados do que os rodeava, com exceção de Hias (Josef Bierbichler), o vidente.

Greenberg esteve presente, em algumas das sessões de hipnose lideradas pelo cineasta, as quais relata com vivacidade:

" Em dois minutos, todos os quatro agricultores ficaram profundamente hipnotizados. Assegurado disso, Herzog deu-lhes as suas instruções de atuação. Disse-lhes que se encontravam em terra celeste, mas quando abrissem os olhos veriam a terra fustigada por gigantes tenebrosos. Ficariam tão assustados, continuou ele, que os lábios começariam a murmurar e os membros a tremerem. No entanto, garantiu-lhes que por mais pavoroso que tudo pudesse parecer, eles estariam sempre seguros, protegidos e capazes de verbalizar as suas linhas , sem a menor dificuldade.”