terça-feira, 29 de outubro de 2013

APAGAR MEMÓRIAS




No meu trabalho, recorro à Hipnose Clínica e utilizo à abordagem terapêutica EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento através do Movimento Ocular - Psicoterapia do Stress Pós-Traumático) para permitir ao detentor de memórias dolorosas, reintegrar as mesmas no seu passado, com um significado mais apropriado para atuar sobre o presente e projetar o futuro: Largar o passado para agarrar o presente. 

Mesmo que fosse possível, o intuito não é apagar o passado, património de cada um, essencial para a nossa aprendizagem, para o nosso crescimento, para a nossa identidade.



Resenha Crítica: "Eternal Sunshine of the Spotless Mind"
Escrito por Aníbal Santiago
(Rick’s Cinema, http://bogiecinema.blogspot.pt/2012/11/resenha-critica-eternal-sunshine-of.html)


"O que levará o amor a desaparecer? Seria capaz de apagar as memórias da pessoa outrora amada? Quais as razões que o levariam a cometer um acto tão extremo? Provavelmente, a resposta para esta questão não seria paradigmática, o amor não é razoável, tolda os sentidos, a alma, o ser, que o digam Joel Barish (Jim Carrey) e Clementine Kruczynski (Kate Winslet), um casal que decidiu apagar da memória a relação que ambos mantiveram durante largo tempo, uma relação que começou de forma cândida, simples, prometedora de amor eterno, mas logo foi sendo abafada pelo desgaste que Joel e Clementine foram conhecendo ao longo do tempo. Estes são os protagonistas de “Eternal Sunshine of the Spotless Mind”, uma obra cinematográfica saída do génio de Michel Gondry que aborda a relação de um casal a partir das memórias que estão prestes a ser apagadas, um amor que parece querer fugir ao inevitável esquecimento, que se reencontra nas memórias do passado, memórias que escondem momentos ternos, comoventes, divertidos, que conseguem superar as más recordações. Chamemos memória seletiva, mas é praticamente dos bons momentos que nos recordamos mais, momentos únicos e especiais 

Logo no início do filme somos apresentados a Joel e Clementine. Este é um indivíduo algo complicado, pouco falador, para quem “Constantly talking isn't necessarily communicating”, que encontra na extrovertida Clementine o seu par ideal. Os dois conhecem-se inesperadamente no interior de um comboio e logo começam um diálogo simples, que revela a grande química entre ambos. No entanto, nem tudo é como parece e cedo o espectador é remetido para a dura realidade entre ambos. Qual o problema entre os dois? Joel e Clementine já tiveram uma relação, mas Clementine decidiu apagar as memórias do namorado na clínica Lacuna, Inc, após a relação entre ambos conhecer momentos algo desgastantes. A descoberta desse facto leva a que Joel decida apagar da memória a mulher que outrora amara, entrando para isso em contacto com o  Dr. Howard Mierzwiak (Tom Wilkinson), o director da Lacuna Inc. Iniciado o processo, Joel começa a recordar-se da amada. Os primeiros encontros, os primeiros diálogos, as suas características, o seu feitio extrovertido que parecia mudar consoante a sua cor de cabelo, pequenas essências que fazem-no querer continuar essas essências do amor outrora vivido, essências que luta para não perder, entrando numa luta contra o tempo para proteger as memórias da sua amada.

A nossa memória é algo de extremamente curioso.No seu interior guardamos recordações de momentos vividos que provavelmente não nos recordamos, guardamos momentos que preenchem de sorrisos a nossa alma, outros de tristeza, acima de tudo, esta preserva todas as experiências que tivemos em cada momento da nossa vida. “Eternal Sunshine of the Spotless Mind” coloca um indivíduo numa luta desenfreada para salvar a memória sobre a pessoa outrora amada, recuperar um amor nas memórias do passado, um amor que pode estar condenado no presente mas ecoa nas memórias de outros tempos, enquanto Michel Gondry desenvolve uma das obras cinematográficas mais intensas e marcantes da sua carreira, naquela que é a sua segunda colaboração com o argumentista Charlie Kauffman (após terem trabalhado juntos em “Human Nature”).
Com um título inspirado no poema “Eloisa to Abelard” de Alexander Pope, o filme remete desde o seu título para a poesia de toda esta narrativa, que é desenvolvida com grande engenho e arte por Gondry, conseguindo jogar com os clichés dos romances e desenvolver uma obra marcante na qual o amor pode surgir nos locais mais inesperados, onde a memória pode ser exterminada, onde um regresso ao passado pode trazer memórias inesquecíveis. Acompanhado por uma banda sonora melancólica, uma fotografia belíssima, na qual os tons luzidios contrastam com uma luz difusa, consoante os diferentes momentos experienciados pelos personagens, Gondry desenvolve uma história de amor que surge na memória, um drama intenso, romântico, belíssimo, no qual Jim Carrey e Kate Winslet oferecem duas excelentes interpretações.

Jim Carrey, numa faceta mais contida do que o habitual, consegue expressar de forma exímia todas as diferentes camadas do seu personagem e os variados estados de espírito. Desde o desespero para não perder o amor da sua vida da memória, passando pelos momentos românticos vividos com Clementine, os momentos mais cómicos quando recorda as humilhações da infância, diferentes camadas que sobressaem com a química que tem com Kate Winslet. A estrela de “Titanic” é uma surpresa, ou não tivesse uma personagem complexa, cuja personalidade parece mudar tanto como a sua cor de cabelo, enquanto procura lidar com as suas inseguranças maquilhadas de certezas como sugere a certa altura do filme : “Too many guys think I'm a concept, or I complete them, or I'm gonna make them alive. But I'm just a fucked-up girl who's lookin' for my own peace of mind; don't assign me yours”. …

Não deixa de ser curiosa toda esta temática de podermos apagar as nossas memórias. Não teremos todos nós momentos que gostaríamos de esquecer para sempre? Provavelmente sim. Mas é impossível não notar que todos os momentos menos positivos serviram para aprendermos algo, para mudarmos, para nos redescobrirmos. “Despertar da Mente” coloca em foco Clementine e Joel. Ela apaga as memórias dele. Despeitado, ele quer apagar as memórias dela. No final, ambos continuam a nutrir sentimentos um pelo outro, seja na memória prestes a ser perdida, seja nas memórias que estão prestes a conhecer, seja no amor que podem vir a recuperar. Entre a realidade presente e a memória do passado, entre a procura de esquecer um amor e recuperá-lo, “Despertar da Mente” revela-se um filme romântico que contrasta os momentos de candura com um drama desesperante, no qual um amor que está prestes a ser perdido tenta manter-se na memória, um filme que comove, faz rir, sofrer, sonhar, onde a mente humana é palco de um arrebatador espectáculo cinematográfico."




Ficha técnica:
Título Original: “Eternal Sunshine of the Spotless Mind”.
Título em Portugal: “Despertar da Mente”.
Título no Brasil: “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”
Realizador: Michel Gondry. 2004, EUA
Guião: Charlie Kaufman.
Elenco: Jim Carrey, Kate Winsley, Elijah Wood, Kirsten Dunst, Mark Ruffalo, Tom Wilkinson, Jane Adams, David Cross.


O Encantamento é nutrido pela Idealização, o Amor persiste na Aceitação, do bom e do menos bom.